"Acossado" (1960), de Jean-Luc Godard
"Acossado" sempre gerou grandes debates aonde eu presenciei citações a ele em conversas gostosas sobre cinema em festas, reuniões ou papos descompromissados por aí. E sempre acho um bom exercício rever clássicos de tempos em tempos, e confirmar que sim, estes filmes realmente são clássicos e possuem grande significado para o cinema.
Jean-Luc Godard, um crítico de cinema que se tornou cineasta pertencente a um grande movimento no cinema francês denominado "Nouvelle Vague", conseguiu neste seu filme de estréia amparar todo seu amor ao cinema norte-americano predecessor aos anos 60, e dentro de sua narrativa cinematográfica conceber uma verdadeira crítica cinematográfica a esta era anterior, se utilizando de personagens, diálogos, referências e técnicas, na época ainda revolucionárias, como filmar com a câmera no ombro, travellings ou os famosos "jump cuts" que só foram realmente naturalizados a partir dos anos 90.
Se Michel, personagem interpretado por Jean-Paul Belmondo, representa todas as referências ao cinema até ali, desde o figurino do cinema noir, a veneração à Humphrey Bogart, ou a inocência do herói, nós temos também em Patricia, a personagem americana interpretada por Jean Seberg, todas as referências às artes, fotografia, moda e literatura - e ambos se conectam em diálogos que transmutam ditames filosóficos de vida inseridos pelo próprio autor, numa relação ambígua, envolvente, e de certa forma fatal.
Mesmo a trilha sonora, um jazz errante para Michel e um clássico de sonhos para Patricia, que também se relacionam e misturam ao longo da narrativa, são formas dentro dos 90 minutos de filme de Godard expressar todo seu conhecimento em seu primeiro filme, e na montagem imprimir o ritmo errante e desconcertante que concebeu a obra como ela é, se imortalizou até hoje como representante de uma das viradas conceituais da história do cinema.
Mesmo com uma carreira até certo ponto irregular, como a nossa própria condição humana, Jean-Luc Godard deixou apenas neste filme muita inspiração para grandes cineastas do fim dos anos 60 e início dos anos 70, que revolucionaram a forma de criar e filmar dentro da indústria hollywoodiana, de "Bonnie e Clyde" para frente, e principalmente na grande geração de cineastas dos anos 70 que realmente transformaram o cinema, entre eles Scorsese, De Palma, Spielberg, Lucas e Bogdanovich.
Sempre saudável revisitar os filmes da Nouvelle Vague, os filmes de Godard especialmente, para nos lembrar que artes como o cinema são sempre mutáveis e em constante evolução, independente de contextos ou conjunturas, para nos dar um pouco de clareza e esperança mesmo em nossos piores momentos.

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